A Estátua da Liberdade: um exemplo pioneiro de crowdfunding

03.04.2014

A Estátua da Liberdade: um exemplo pioneiro de crowdfunding

Com um orçamento que corresponderia actualmente a 6,3 milhões de dólares, o pedestal da Estátua da Liberdade foi construído com o apoio de uma campanha precursora de crowdfunding, liderada pelo jornal 'The New York World' e pelo seu famoso editor Joseph Pulitzer.


Corria o ano de 2006 quando o termo crowdfunding foi referido pela primeira vez num blog. Desde então, esta prática de financiamento colectivo de projectos tem sido crescentemente adoptada por empreendedores, artistas, filantropos e outros agentes.

As plataformas de crowdfunding multiplicaram-­se (podemos citar a Kickstarter, a Indiegogo, a Fundable e as as portuguesas PPL e Massivemov) e o sucesso e visibilidade deste tipo de projectos cresceu (veja­-se a startup PonoMusic, lançada pelo músico Neil Young e que angariou 3 milhões de dólares ou a visibilidade nacional do projecto de filme do humorista português Nuno Markl).

No entanto, apesar da recente moda de crowdfunding, o financiamento colectivo é uma realidade que existe pelo menos desde o século XVII e que tem como um dos exemplos mais curiosos a construção da Estátua da Liberdade e do seu pedestal. Este monumento foi uma oferta diplomática francesa aos Estados Unidos, doada em 1876, por ocasião do centenário da independência deste país. Projectada por Frédéric Auguste Bartholdi, a imponente estátua de 46 metros deveria ser colocada num local à escolha dos Norte­-Americanos, sobre um pedestal a construir.

No entanto, quando a Estátua da Liberdade chegou aos Estados Unidos, os Nova-Iorquinos não tinham sido capazes de reunir os 250.000 dólares necessários para a construção do pedestal, que equivaleriam nos dias de hoje a cerca de 6,3 milhões de dólares.

A origem do financiamento em falta, que correspondia a mais de um terço do orçamento, parecia incerta. O Governador de Nova Iorque recusou-se a utilizar fundos camarários, o Congresso estava num impasse e já havia cidades como Baltimore, Boston, São Francisco e Filadélfia a oferecerem-se para pagar o pedestal se a estátua aí fosse colocada.

Foi então que Joseph Pulitzer, editor do 'The New York World', decidiu lançar uma campanha de angariação de fundos para o pedestal da Estátua da Liberdade. De forma muito semelhante à que actualmente se utiliza no crowdfunding, a campanha reuniu uma quantidade significativa de dinheiro (101.091 dólares), de forma muito rápida  (5 meses) a partir de um grande número (160.000) de doações de pequeno valor (75% das pessoas deram menos de 1 dólar). Um só agente coordenou todo o processo de angariação de fundos: o jornal 'The New York World'.


129 anos depois, a campanha do 'The New York World' continua a ser um exemplo de estratégia de crowdfunding inteligente, como a Estátua da Liberdade, orgulhosamente assente no seu pedestal, ilustra. Algumas das lições que a campanha do jornal nos ensinou foram:

- o segredo para uma campanha de sucesso consiste em envolver emocionalmente a audiência e fazê-la sentir-se orgulhosa por participar no projecto;

- é importante ter algum dinheiro angariado previamente ao lançamento de um projecto de crowdfunding, pois dá ímpeto às doações seguintes;

- a necessidade das pessoas se expressarem pode ser uma motivação importante para participar; no caso do The New York World, o jornal publicou cartas e nomes das pessoas que contribuíram;

- é necessário criar um sistema de recompensas para quem contribui; no caso do jornal, para além das cartas foi estabelecida uma parceria com lojas que vendiam miniaturas da estátua a troco da contribuição;

- a publicidade da causa é essencial: devem organizar-se acções de divulgação variadas e que podem incluir figuras públicas; no caso do jornal, foram organizadas exposições de arte e peças de teatro, entre outras acções.

    

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